sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A nova face da esquerda brasileira: o “governismo lulista”


A extraordinária façanha dos esquerdistas brasileiros foi ter conseguido reunir numa mesma corrente social difusa políticos, imprensa e elites através de uma plataforma que contraria o interesse da maioria da população brasileira.

Uma das últimas capas da revista CartaCapital apresentava uma manchete reveladora: “O Embate Final”, a respeito do 2º turno paulistano entre Fernando Haddad e José Serra. Mas qual era o real significado expresso por tal ideia?

A intenção da esquerda brasileira – como de resto qualquer esquerda – tem sido levar o ambiente político a um beco sem saída onde qualquer agenda a ser aplicada passe necessariamente por seu próprio crivo. Uma espécie de “fim da história” em versão partidarizada.

Na cabeça de muitos esquerdistas brasileiros (como aqueles que leem e editam a revista), o julgamento do Mensalão está longe de ser a “vitória suprema” do império das leis sobre o abuso dos políticos, funcionando na verdade como um exame de pós-graduação para petistas e congêneres serem testados nas urnas: se nem a desmoralização e a cadeia para alguns de seus líderes conseguiu provocar uma derrota proporcional na eleição, quem ou o quê poderá impedir a marcha socialista estampada na bandeira dos mensaleiros e de seus camaradas?

Tal fenômeno não poderia ocorrer sem o apoio muitas vezes explícito de jornalistas, acadêmicos e representantes da elite brasileira (elite entendida de maneira geral, inclusos aí empresários e lideranças sindicais, por exemplo). Se o ambiente político refletido nas eleições assumiu um caráter especialmente consensual em 2012, não foi sem o apoio direto ou o conformismo de amplos setores influentes da sociedade, divididos entre colaboradores entusiásticos e apalermados.

Durante muito tempo, a esquerda brasileira foi identificada com o oposicionismo permanente e militante (função exercida hoje pelos partidos nanicos de extrema esquerda). Ao assumir o governo (primeiro através da social democracia tucana e depois do socialismo de origem sindical e universitária do PT), tal composição de forças políticas foi migrando da inspiração revolucionária, nacionalista, anticapitalista e flagrantemente violenta para sua versão modernizada, competitiva, globalizada, disposta a arranjos “à direita” e à esquerda com as mais variadas vertentes organizadas, sem contudo perder de vista seus objetivos estatizantes e de transformação social a algum preço (ou a qualquer deles).
Hoje, a versatilidade do esquerdismo (encabeçado sem dúvida pelos petistas no poder) levou o panorama político à completa estagnação em torno de meia dúzia de pontos convergentes sobre os quais divergir virou um esporte para poucos abnegados. Políticos apavorados em ser confundidos com algum tipo de “oposição” convertem-se à situação mesmo contra a vontade dos próprios governistas (caso de Gilberto Kassab, por exemplo, o estorvo inevitável de tucanos e petistas, o apoio que ninguém parece querer), abrindo mão da disputa e do debate político natural a qualquer democracia. Todos querem ser, em alguma esfera e em algum momento, “governo”. Se o preço a ser pago para isso é o socialismo, ninguém parece incomodado o suficiente para rejeitar as condições.
É possível afirmar que a maneira encontrada pela esquerda brasileira para rearranjar o campo político brasileiro de maneira a eliminar a oposição sem derramar muitas gotas de sangue foi uma mistura informal de “governismo” com “lulismo” que poucos têm coragem ou disposição para questionar.

governismo é expresso pela certeza de que qualquer mudança, atividade ou evolução terá de acontecer necessariamente com a interferência direta do Estado, e que portanto vale ser governo (e não oposição) independente do que isso signifique. Olulismo, por sua vez, funciona como avalista de tal princípio, a face visível do projeto de poder proposto – a ponto de nem mesmo os maiores adversários de Lula parecerem ter a valentia necessária para desafiá-lo, sob pena aparente de diluir a própria “popularidade” medida de maneira muitas vezes suspeita pelos institutos de pesquisa.
De maneira mais ou menos compacta, as principais lideranças políticas brasileiras, bem como os órgãos da grande mídia, o alto empresariado e a elite universitária e sindical gravitam em torno dessa manifestação pragmática de esquerdismo: quem é menos “governista” muitas vezes alinha-se a Lula, ou vice-versa. Um bom exemplo disso é o próprio PSD kassabista: embora possa ter em seus quadros nomes tradicionalmente relacionados ao liberalismo e à iniciativa privada, algum deles assume postura pública contrária ao lulismo? Raramente. Por outro lado, esquerdistas mais “sofisticados” (se é que isto é possível) incomodados com a vulgaridade de métodos e palavras posto em prática por Lula não deixam de viver abraçados ao governismo teórico ou aplicado (são acadêmicos de formação marxista, ideal estatizante ou estudiosos de toda espécie dependentes de bolsas e verbas públicas do próprio governo).

A grande imprensa, por sua vez, acompanhada do rol habitual de celebridades descerebradas com microfones grudados no pescoço, aceita a ideia socialista de intervenção governamental ao mesmo tempo em que submete-se a Lula com medo da suposta popularidade do mestre.

Isto tudo, sem esquecer os capitalistas brasileiros alimentados pelo combustível dos empréstimos públicos, subsídios e políticas protecionistas. Mais governismo impossível.
Enquanto tal composição de forças conduz o país, acotovelando-se próxima da poder de modo a aumentar as benesses particulares que só o governo (especialmente o federal) pode conceder, uma imensa parcela da população brasileira é mantida do lado de fora do debate e da disputa eleitoral.

Ao contrário, entretanto, do “fim da história” preconizado pela CartaCapital e pelos esquerdistas governistas e lulistas que ela representa, a perspectiva que se desenha para o Brasil e seu panorama político pode ser ligeiramente diferente do que preveem socialistas esfuziantes e conservadores abatidos: uma nova contraposição de forças, desta vez entre dependentes do Estado e contribuintes, entre órgãos aparelhados e cidadãos comuns, entre candidatos profissionais e lideranças independentes. Como fazer tal batalha ser iniciada e com qual fonte de energia alimentá-la (Leis de iniciativa popular? Desobediência civil? Reforma política? Ações de inconstitucionalidade? Militância profissionalizada nas redes sociais?) é a pergunta a ser respondida – e cuja resposta parece interessar a todos, menos à esquerda (governista e lulista) no poder.

Fonte: http://midiaamais.com.br/artigo/detalhes/2360/


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